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Contrariando orientação do Vaticano para a realização de uma cerimônia menos politizada, a Missa dos 500 Anos de Evangelização foi invadida de surpresa ontem por um grupo de cerca de 40 índios que protestou por atos de violência cometidos contra seus povos. "Quinhentos anos de sofrimento, de massacre, de exclusão, de preconceito, de exploração, de extermínio de nossos parentes, aculturamento, estupro de nossas mulheres, devastação de nossas terras, de nossas matas, que nos tomaram com a invasão. Hoje, querem afirmar a qualquer custo a mentira, a mentira do Descobrimento. Estamos de luto. Até quando?", declarou o pataxó Jerry Adriani Santos de Jesus, 24, na missa. Acompanhado por índios vestidos a caráter e carregando uma faixa preta, Jesus, conhecido como Matalauê, chegou a ameaçar abandonar a missa caso a organização não permitisse sua entrada. "Fomos barrados pelos seguranças do vice-presidente (Marco Maciel), que disseram que não poderíamos entrar por falta de credenciais. Ora, estávamos em casa! Não precisávamos disso. Eles é que tinham de pedir licença para a gente", disse Matalauê. Um dos principais motivos do protesto foi o conflito entre índios e policiais no último sábado, dia do Descobrimento. Reprimida com bombas de efeito moral, a manifestação terminou em 141 presos e pelo menos 30 feridos. "Isso é nossa terra. Onde vocês estão pisando vocês têm que ter respeito porque essa terra pertence a nós. Vocês, quando chegaram aqui, essa terra já era nossa. O que vocês fazem com a gente? Impediram a nossa marcha com um pelotão de choque, tiros e bombas de gás. Com o nosso sangue, comemoram mais uma vez o Descobrimento", declarou Matalauê durante a celebração. O discurso causou constrangimento entre lideranças da CNBB. Segundo a Folha apurou, a entidade havia autorizado o protesto dos indígenas desde que ele não fosse realizado durante a missa. O conteúdo da celebração -presidida pelo cardeal e secretário de Estado Angelo Sodano, segundo homem na hierarquia do Vaticano- foi resultado de uma longa negociação com Roma. Defensora de pouca contundência nas questões sociais, a Igreja Católica vetou cantos e trechos críticos no evento. Diante das proibições, feitas pelo próprio cardeal, segundo apurou a Folha, o roteiro foi refeito pela CNBB. "O discurso foi uma iniciativa dos pataxós. Eles nos propuseram anteontem à noite uma forma de expressão contra os atos de violência de sábado. Aceitamos, mas os orientamos para que que fizessem isso antes da missa. Eles não apareceram no momento combinado. Depois chegaram e subiram ao altar", declarou o bispo d. Geraldo Lyrio Rocha, responsável pela comissão da CNBB que organizou o evento de ontem. "Foi um ato espontâneo e inesperado, mas a CNBB não viu isso como um ato de afronta", completou o bispo. A assessoria do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) também afirmou não ter conhecimento sobre a manifestação dos índios. Muito aplaudido, inclusive por um sorridente ministro Rafael Greca (Turismo), Matalauê deixou o altar com os olhos cheios de lágrimas. Na primeira fila da platéia, o vice-presidente Marco Maciel não se manifestou. De acordo com o índio, a idéia da faixa preta partiu da irmã Silde Coldebela, uma das coordenadoras de liturgia da CNBB. A irmã não foi localizada para comentar. Depois da manifestação de Jesus, Coldebela chegou a afirmar que os índios condicionaram sua presença na missa ao direito de poder participar da maneira que achassem mais conveniente. Além do protesto indígena, também foram feitos pedidos de proteção para desempregados, sem-teto e sem-terra. Truculência Em carta aos colegas da conferência da CNBB, os bispos Franco Masserdotti, presidente do Cimi, d. Tomás Balduíno, presidente da Comissão Pastoral da Terra, e Heriberto Hermes acusaram a Polícia Militar baiana de ter agido de forma "truculenta". Próximo Texto: As frases do índio *** São Paulo, quinta-feira, 27 de abril de 2000 Leia abaixo a íntegra do discurso do índio pataxó da Redação "Hoje, é esse dia que podia ser um dia de alegria para todos nós. Vocês estão dentro da nossa casa. Estão dentro daquilo que é o coração do nosso povo, que é a terra, onde todos vocês estão pisando. Isso é nossa terra. Onde vocês estão pisando vocês têm que ter respeito porque essa terra pertence a nós. Vocês, quando chegaram aqui, essa terra já era nossa. O que vocês fazem com a gente? Nossos povos têm muitas histórias para contar. Nossos povos nativos e donos desta terra, que vivem em harmonia com a natureza: tupi, xavante, tapuia, caiapó, pataxó e tantos outros. Séculos depois, estudos comprovam a teoria, contada pelos anciões, de geração em geração dos povos, as verdades sábias, que vocês não souberam respeitar e que hoje não querem respeitar. São mais de 40 mil anos em que germinaram mais de 990 povos com culturas, com línguas diferentes, mas apenas em 500 anos esses 999 povos foram reduzidos a menos de 220. Mais de 6 milhões de índios foram reduzidos a apenas 350 mil. Quinhentos anos de sofrimento, de massacre, de exclusão, de preconceito, de exploração, de extermínio de nossos parentes, aculturamento, estupro de nossas mulheres, devastação de nossas terras, de nossas matas, que nos tomaram com a invasão. Hoje, querem afirmar a qualquer custo a mentira, a mentira do Descobrimento. Cravando em nossa terra uma cruz de metal, levando o nosso monumento, que seria a resistência dos povos indígenas. Símbolo da nossa resistência e do nosso povo. Impediram a nossa marcha com um pelotão de choque, tiros e bombas de gás. Com o nosso sangue, comemoram mais uma vez o Descobrimento. Com tudo isso, não vão conseguir impedir a nossa resistência. Cada vez somos mais numerosos. Já somos quase 6.000 organizações indígenas em todo o Brasil. Resultado dessa organização: a Marcha e a Conferência Indígena 2000, que reuniu mais de 150 povos; teremos resultado a médio e a longo prazo. A terra para nós é sagrada. Nela está a memória de nossos ancestrais dizendo que clama por justiça. Por isso exigimos a demarcação de nossos territórios indígenas, o respeito às nossas culturas e às nossas diferenças, condições para sustentação, educação, saúde e punição aos responsáveis pelas agressões aos povos indígenas. Estamos de luto. Até quando? Vocês não se envergonham dessa memória que está na nossa alma e no nosso coração, e vamos recontá-la por justiça, terra e liberdade."